Esporte Participação

RESUMO: DESPORTO DE PARTICIPAÇÃO caracterizado pela prática voluntária, compreendendo as modalidades desportivas com finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente.

Desporto de participação: Caracterizado pela não exigência de regras formais, objetivando o desenvolvimento do indivíduo através do esporte. É o esporte como lazer; Desporto de participação, de modo voluntário, compreendendo as modalidades desportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente.

Fonte: Disponível em: http://www.conesprio.com.br/projetos_manifestacao.asp. Acesso em: 29 março 2012.

 

A nova dimensão esportiva: uma leitura do esporte e do lazer

 

Marco Antonio Bettine de Almeida*

Gustavo Luis Gutierrez**

Introdução

    Não há dúvida que ocorreu uma transformação do conceito esporte no Brasil. Nos locais públicos como nas praças, nos parques assistimos ao nascimento de um novo conceito de esporte, o chamado por Dieckert (1984) de “esporte de lazer”.

    A junção de dois termos abrangentes, lazer e esporte, enseja estabelecer um outro sentido para o esporte. Porque o esporte de alto-rendimento não tem nada de idílico, e está muito distante daquilo que consideramos lazer. No esporte de auto-rendimento há a busca do primeiro lugar sempre, síndrome do vencedor e ambição ao recorde. Lembrando que as regras são impostas, não existe interação entre os sujeitos e as regras, a discriminação é total já que separa os aptos dos inaptos, bem como a separação histórica por gênero, idade e nível técnico. O tempo é curto, a vida de atleta é muito curta, se comparada ao esporte de lazer que é para a toda vida. No esporte de auto-rendimento temos como premissa o trabalho e o autoritarismo, com estruturas rígidas dos técnicos, dos diretores, patrocinadores. O atleta aliena seu corpo para a busca do recorde, ficando preso ao sistema financeiro pelos patrocínios e pelo sistema científico com as técnicas, os treinos e os equipamentos.

    Realizar atividades físicas sem pretensão de superar índices individuais para apenas sentir-se integrado ao meio ambiente; ser atraído para a prática de um esporte despojado de comparações atléticas; sentir-se satisfeito pela convivência com as pessoas; perceber a facilidade de acesso à prática das atividades físicas e esportivas oferecidas por uma estrutura de funcionamento organizada com segurança para a integridade pessoal de todos; tornar possível a realização do convívio social e seu aproveitamento, decorrente do esporte; favorecer uma prática esportiva que elimine diferenças no sentido de democratizar o bem estar: esses são alguns dos preceitos que nascem da prática do esporte hoje. Neste ensaio pretendemos caracterizar exatamente este esporte que se agrega aos valores do lazer.

Esporte Participação

    O que assistimos hoje é o esporte renascendo para a transformação dos valores contemporâneos, talvez mais próximos do que Dumazedier (1979) chamava de esporte participação, ou, hoje, denominado esporte de lazer. A mudança do sentido na prática cotidiana do esporte de auto-rendimento para esporte de lazer ocorreu através da projeção do lazer enquanto elemento intrínseco à atividade humana, transformando as práticas esportivas no tempo livre em entretenimento, diversão, participação, bem estar e qualidade de vida.

    Na década de 1970 iniciou-se uma ampla pesquisa para compreender a ressonância das atividades de tempo livre. Houve uma nítida metamorfose no conceito esporte, vinculado à performance máxima, a ambição do recorde e busca de reconhecimento. O esporte sempre fora ligado ao mito do super-homem, veiculado à ascensão social, principalmente em países de terceiro mundo, onde as oportunidades de emprego são escassas. A metamorfose, da década de 1970, foi exatamente na passagem do esporte de auto-rendimento para a busca do lazer no esporte.

    O aumento do tempo livre, o conhecimento do corpo, o desenvolvimento da industria cultural, as possibilidades de entretenimento, enfim, muitos são os motivos que justificam a ampla abordagem do tema lazer neste período histórico. O desenvolvimento do seu conceito, a compreensão da sua necessidade social, a preocupação em implementar políticas públicas são marcos conceituais básicos que sustentam a transformação do sentido esporte de auto-rendimento em esporte de lazer. Este panorama de transformação, do conceito esporte no Brasil, ocorreu pela incorporação das teses de Dumazedier (1979) e Marcellino (1987) na compreensão do fenômeno lazer, bem como as críticas e reformulações do processo corrente de discussão científica. Podemos apontar a valorização dos jogos populares, a ampliação do conceito de prática esportiva, as atividades de ruas e os projetos culturais em todos os segmentos e grupos como fatores determinantes da mudança do olhar no esporte brasileiro (ALMEIDA e GUTIEREZ, 2004).

    O lazer associa-se ao bem-estar-social e qualidade de vida, conceitos amplamente difundidos no mundo contemporâneo (ALMEIDA e GUTIEREZ, 2004). A necessidade de espaços que promovam o lazer levou a população exigir além de estádios de futebol ou quadras para jogos de times profissionais, equipamentos multifuncionais, espaços livres onde a pessoa pratique e não fique como espectador passivo (HAAG, 1984). A importância do lazer e do esporte do lazer fez com que o setor privado investisse em outros ambientes como os parques temáticos. A exigência social alertou o setor público, principalmente as secretarias de esporte e lazer, para ampliação, construção e animação dos parques, ruas de lazer e clubes públicos, ações que tiveram seu início com o movimento “Esporte para Todos”. Sem entrar no mérito da utilização política militarista, foi um momento que se difundiu os ideais de esporte de lazer. Na história do esporte, vínhamos renascendo do obscurantismo corporal, a exemplo de outros países em processo de industrialização. A máquina do progresso criou atalhos para a economia, que incluiu o esporte da sociedade. Mecanismos legais foram criados sem ganhar importância devida, na tentativa de estabelecer retomadas de rumo.

    Outro fator determinante ocorreu através das ações das prefeituras, que incorporaram o discurso do esporte de lazer, não mais como higienização militar, mas como participação e cidadania. Houve uma revolução no planejamento urbano, colocando o lazer como parte deste processo de ampliação das políticas urbanísticas das cidades.

Esporte e o Lazer

    Todos estes acontecimentos levam a uma metamorfose no conceito esporte, no que se refere ao esporte participativo e as atividades físicas, pois o esporte não é mais compensatório para aliviar as tensões do trabalho, pelo contrário, o esporte de auto-rendimento leva a uma maior tensão já que é a própria representação do trabalho. Os investimentos do Estado no lazer, através do conceito de Estado de bem-estar-social e qualidade de vida levou a uma transformação no conceito de planejamento urbano e de políticas públicas no setor, e, com a ampliação dos praticantes de esporte sem fins lucrativos, constituiu-se grupos de jogos (esportes sem regras rígidas) participativos. O próprio desenvolvimento na área científica demonstrou um avanço no entendimento do esporte de lazer ou mesmo a perda da influência do esporte de alto rendimento nas aulas de educação física, pelo menos no plano do discurso.

    É interessante notar que há um avanço no esporte não tradicional como esporte de aventura, que se aproxima muito mais do esporte de lazer do que do esporte de alta-competição. Para Elias e Dunning (1992) há um avanço nas formas de integração e associação nas atividades de lazer. As atividades radicais suscitam sentimentos fortes criando tensões, provocando a excitação, o perigo imaginário e real, o medo, o prazer, a tristeza e a alegria. Neste sentido, é razoável defender a idéia de que os esportes de lazer como cultura espelham mais a sociedade atual que o futebol como monocultura. Dois fatores são fundamentais para esta análise: o primeiro refere-se à violência na prática do futebol. O segundo é o desenvolvimento do conceito de lazer. Quanto ao desenvolvimento do conceito de lazer é notório que as pessoas, de um modo geral, conheçam, se interessem e exijam práticas mais prazerosas. As atividades de esporte de lazer são amplamente difundidas e praticadas, elas levam a um determinado grau de excitação que promovem o prazer, despertam emoções, evocam tensões de forma controlada.

    Fica claro que o esporte de lazer busca a alegria, o divertimento, o prazer e a sociabilidade. Conceitos típicos do lazer que são incorporados no esporte. A brincadeira é valorizada, a estrutura do jogo é alterada, a idéia de multiplicidade aparece com freqüência, bem como a diminuição do preconceito dos melhores e piores praticantes (OLIVEIRA, 1982). A pluralidade é importante, mas outro fator é ainda mais significativo, a preocupação com grupos minoritários, como o desenvolvimento de atividades de esporte e lazer para pessoas com necessidades especiais.

    Outro grupo importante é o da terceira idade (DIECKERT, 1984), já que esta faixa etária serve como elemento metodológico explicativo da transformação do esporte de lazer. Ao colocar ênfase na terceira idade, o autor apresenta um esporte que tem como princípio o fazer pelo fazer, o praticar para sentir-se bem com o mundo e com a vida. A colocação deste grupo reflete uma postura ideal do lazer, mais próxima do lazer pleno. No plano teórico, o lazer, para esta classe, não seria compensatório ou repositório das energias gastas no trabalho, o lazer seria o fazer pelo prazer, sem precedentes ou tempo subjugado ao trabalho, seria o lazer na sua plenitude.

    O esporte de lazer promove a participação de todos os setores e se preocupa com a acessibilidade e inclusão. Por isso os equipamentos são diferenciados; as tabelas de basquete maleáveis; as quadras não precisam de linhas rígidas; os espaços amplos; o acesso ilimitado; a participação generalista e a participação multipessoal. O esporte de lazer não precisa de estádios, de locais fechados, ou mesmo equipamentos de última geração que só os iniciados conseguem utilizar. O esporte de lazer exige equipamentos amplos que possam ser aproveitados por diversas faixas etárias, tipos de pessoas e jogos. Os equipamentos devem atender amplas necessidades não ficando somente "preso" a uma modalidade (DIECKERT, 1984).

Conclusão

    A contribuição deste texto é apresentar que o esporte de lazer não deve ser pensado como extensão do esporte de alta-competição. As pessoas não praticam esporte por causa dos jogos olímpicos, ou competições internacionais, as pessoas praticam esporte de lazer para o seu prazer. Não podemos ficar presos a idéia de ampliar o acesso ao esporte de lazer para termos futuros craques, mas sim, ampliar o acesso ao esporte para justificar uma política social, de desenvolvimento pessoal e atitude desinteressada. Temos que desenvolver o esporte de lazer para um processo de participação sem precedentes, sem restringir-se ao auto-rendimento, tendo no esporte uma forma de prática como conquista social e participação comunitária.

Referências:

*ALMEIDA, Marco e **GUTIERREZ, Gustavo. Políticas Públicas de lazer e qualidade de vida. In: VILARTA Roberto (Org). Qualidade de vida e políticas públicas. Campinas: IPES editorial, 2004.

DIECKERT, Jürgen. Peculiaridade e autonomia do esporte de lazer. In: Esporte de lazer tarefa e chance para todos. (Trad. Maria Lenk). Rio de Janeiro: 1984.

DUMAZEDIER, Joffre. Sociologia Empírica do Lazer. Tradução: Silvia Mazza e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva/SESC, 1979.

ELIAS, Nobert e DUNNING, Eric. Deporte y ócio en el proceso de Ia civilizacion. (Trad. Purificacion Jimenez). Mexico: Fondo de Ia cultura economicà, 1992.

HAAG, Hebert. “Educação para o lazer em modelo de referência para pesquisas curriculares específicas da educação fisica". In: Esporte de lazer tarefa e chancepara todos. Tradução: Maria Lenk. Rio de Janeiro: 1984.

MARCELLINO, Nelson. Lazer e Educação. Campinas: Papiros, 1987.

OLIVEIRA, Paulo. Brinquedos artesanais & expressividade cultural. São Paulo: SESC-CELAZER, 1982.

Fonte: Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd116/uma-leitura-do-esporte-e-do-lazer.htm. Acesso  em: 27 março 2012.

Esporte de participação

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O esporte por definição pode ser enquadrado em três distintas manifestações: 

Desporto educacional - cujo público deve ser o de alunos matriculados em instituições de ensino. 

Desporto de alto rendimento - cuja finalidade é a obtenção de resultados, segundo regras rigidamente definidas. 

Desporto de participação - que se caracteriza pela prática voluntária e "compreende as modalidades esportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente"

Não tenho dúvidas em afirmar que entre as três manifestações, essa última é a mais democrática, pois não coíbe a participação de ninguém, além de quebrar mitos acerca de supostas "superioridades" genéticas. 

Se observarmos a chegada de uma maratona ou mesmo de um Ironman nos depararemos com uma grande quantidade de pessoas absolutamente comuns, semelhantes em sua complexão aos vizinhos de sua rua ou aos seus colegas de trabalho. 

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Todos esses finalistas, no entanto, apresentam uma grande diferença dos “vizinhos” e “colegas” utilizados como parâmetro, a disciplina de se engajarem num objetivo. Mais fácil para uns do que para outros, mas sempre, um desafio. 

Feitos os devidos esclarecimentos sobre essa forma de manifestação, abordaremos aqui o Desporto de Participação sob um foco mais voltado aos aspectos mercadológicos do esporte. 

As corridas de rua talvez sejam o melhor exemplo desse conceito, pois se trata de um fenômeno mundial, no qual o número de praticantes cresce significativamente, o que traz na sua esteira inúmeras fontes de receitas. 

Essas provas conseguem ainda proporcionar ao participante, a oportunidade de estar competindo junto a atletas de alto rendimento, mesmo que durante o percurso seja impossível avistá-los. 

A grande maioria dos participantes tem como objetivos a busca da satisfação, a promoção da saúde física e mental, uma melhor qualidade de vida e, por que não dizer, um desafio pessoal, seja esse na busca de uma melhor performance ou na conclusão de uma competição desafiadora. 

Dentro desse contexto são peças fundamentais para o fomento da atividade esportiva e do aquecimento da economia.

Abaixo relacionamos as atividades demandadas e seus respectivos beneficiários.

  • aquisição de equipamentos esportivos - indústria e comércio.
  • inscrições para competições - agências de marketing esportivo, organizadores de eventos e sua cadeia de fornecedores.
  • busca por orientação técnica - treinadores especializados na modalidade, academias, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e afins.
  • viagens para provas - companhias aéreas, hotéis, operadores de turismo e comércio nas sedes dos eventos.
  • confiança em quem acredita no esporte - patrocinadores.
  • impostos - governo.

Outra importante observação ao desporto de participação diz respeito ao aspecto "faixa etária", pois enquanto o desporto educacional é voltado aos jovens e o desporto de alto rendimento é voltado para os que se situam em idades que lhes garantem competitividade, o desporto de participação é franqueado a pessoas de qualquer idade, vide a quantidade de competições voltadas ao público máster de diversas modalidades esportivas. 

Tal fato contempla um universo maior de pessoas, essas, em tese, melhores estabelecidas em termos financeiros. 

Portanto, além dos aspectos sociais que o desporto de participação proporciona à população, esse, se bem trabalhado sob um viés de marketing, pode ser uma extraordinária fonte de lucros para os envolvidos nessa cadeia de negócios.

Postado por IDEL HALFEN

Fonte: Disponível em: http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2011/08/esporte-de-participacao.html. Acesso em: 29 março 2012.

Esporte educacional, de desenvolvimento, participação e lazer e de rendimento

Deve-se compreender o conceito e a prática do esporte em suas três dimensões: educacional, de participação e lazer e de rendimento;

• Compreender que o esporte escolar, na atual estrutura piramidal, deve ser reformulado.

Torna-se importante destacar que tais princípios do esporte de rendimento podem se manifestar no esporte educacional, no nascimento do esporte na criança. Os professores de Educação Física conhecem tais princípios, entretanto, precisam compreendê-los melhor. O estranhamento no esporte pode ser muito forte na formação inicial das crianças, que poderia conduzi-las à passividade da mera torcida pelos colegas considerados mais “aptos”. Tais divisões e fragmentações estranham as possibilidades educacionais no esporte e precisam ser revistas pelos professores.

O individualismo e a hipercompetitividade precisam ser constantemente combatidos. São expressões máximas e esdrúxulas que se deseja negar numa sociedade efetivamente fraterna e democrática.
As manifestações da individuação (indivíduo em ação) e da competição a favor e não contra o humano devem ser incentivadas e promovidas de forma didática e educacional, garantindo-se a permanência de valores éticos no decorrer da vida. Bracht (1992), advogando princípios de uma pedagogia crítica para a área, enumera as seguintes posturas:

“Os professores de Educação Física precisam superar a visão positivista de que o movimento é predominantemente um comportamento motor. O movimento é humano, e o Homem é fundamentalmente um ser social (...) precisam superar a visão de infância que enfatiza o processo de desenvolvimento da criança como natural e não social. Fala-se da criança em si, e não de uma criança situada social e historicamente (...) devem buscar o entendimento de que, o que determinará o uso que o indivíduo fará do movimento (na forma de esporte, jogo, trabalho manual, lazer, agressão a outros e a sociedade etc.) não é determinado em última análise, pela condição física, habilidade esportiva, flexibilidade, etc., e sim pelos valores e normas de comportamento introjetados, pela condição econômica e pela posição na estrutura de classes de nossa sociedade (...) Superar a falsa polarização entre diretividade e não-diretividade (...) um outro equívoco que precisa ser superado, é o de que devemos simplesmente ignorar a cultura dominante, que nesse entendimento não serve à classe dominada” (Bracht, 1992, p. 65).

Ao superar uma série de condicionamentos pertinentes à formação tecnicista em Educação Física, os professores precisam entender que o esporte educacional e escolar deve ser o esporte da escola e não o esporte na escola. Da escola, por ser próprio de cada manifestação individual e coletiva, por ser próprio de cada localidade e principalmente, por carregar a perspectiva da autonomia. Não deve ser um esporte na escola, isto é, um esporte de rendimento, olímpico e de treinamento, injetado na escola por determinação de uma dada cultura dominante, televisiva e mercadológica. As interfaces entre o esporte na escola e o esporte da escola tornam se visíveis na medida em que o esporte puder ser democratizado, isto é, ensinado a todos. Reafirma-se a idéia de que não há por que ser contra o esporte de rendimento, afinal ele tem um porquê e um para quê, além do para quem de sua existência.Assim, as divisões entre Educação Física escolar e não-escolar contribuem para uma visualização da cultura corporal de forma ampla, complexa e dialética. Todas as manifestações dos jogos, das brincadeiras, do esporte, da dança, das lutas, da capoeira e de inúmeras formas de movimentar-se estão presentes nestas duas subáreas. Ocorre que as mudanças neoliberais da década de 1990 imputaram à educação formal um sentido restrito à Educação Física. Soma-se a isso o abandono e o sucateamento dos espaços públicos, dos equipamentos e da qualidade profissional que não pode ser imposta por um simples registro, mas deve ser formulada e articulada historicamente.

A atual estrutura do Ministério do Esporte está baseada na Constituição brasileira.
As divisões do Esporte e a constituição de um Ministério próprio com três Secretarias (Educacional, de Desenvolvimento, Participação e Lazer, e de Rendimento) ajudam a compreender o esporte como prática social historicamente construída e culturalmente desenvolvida. As nítidas fronteiras entre as três dimensões do esporte foram resultado das mudanças processadas na sociedade brasileira nos últimos trinta anos, bem como das mudanças internas na área de Educação Física.

O Esporte Escolar é ainda restrito a crianças e adolescentes considerados talentos esportivos, sendo dominantemente compreendido como base para o esporte de rendimento e desenvolvido a partir desta compreensão. Esta é uma realidade que distancia a prática do Esporte da perspectiva educacional, gerando exclusão nas práticas escolares e desigualdade de oportunidades, pois é um processo que já se inicia sendo oferecido para poucos. Sabendo que no decorrer dos anos haverá exclusão e desistência por uma série de fatores, chega-se ao esporte de rendimento com um número baixo de talentos esportivos.

Em sua opinião, quais as principais características do esporte educacional?

Na contra-mão desta pirâmide injusta, busca-se o aumento do número de alunos envolvidos, a continuidade do processo de participação esportiva na vida escolar, almejando uma educação integral, projetando a disseminação da prática e da cultura esportiva do país.Dessa forma apresentamos uma (re)significação da pirâmide citada (que busca talentos pela exclusão – elementos a serem combatidos), incluindo-a dentro de um amplo bloco de sujeitos envolvidos, o que demonstra a continuidade de um processo de ensino e prática esportiva com elevada qualidade ao povo. Teríamos a oportunidade de ampliar o número de praticantes de esporte, tanto de nível iniciante (1) como de nível intermediário (2) antes de se chegar ao esporte de rendimento; nesta lógica, com novo significado.A abertura das pirâmides, isto é, a inversão da lógica da pirâmide anterior (triângulo) implica o alargamento de oportunidades e novas possibilidades de vivência do esporte.Verificamos, assim, a necessidade do aumento da prática esportiva nas escolas, por meio de um projeto de cunho pedagógico e educacional, de competições regionais, estaduais e nacionais, de eventos e festivais esportivos. Em outros termos, o esporte escolar olhando e trabalhando para além da antiga e obsoleta pirâmide.


O professor Elenor Kunz, em 1994, abordou o problema da mudança que era (e continua sendo) necessária na Educação Física. Seu estudo de doutoramento contribuiu para processar as mudanças na Educação Física através do tema esporte. Em sua concepção, haveria uma transformação didática do esporte na prática do professor de Educação Física. A idéia inicial da tese pode ser resumida em: “É uma irresponsabilidade pedagógica trabalhar o esporte na escola que tem por conseqüências provocar vivências de sucesso para uma minoria e vivência de insucesso ou de fracasso para a maioria”.Desta forma, o desenvolvimento do esporte escolar seria conduzido pela contra-mão do processo de exclusão da maioria, isto é, os professores de Educação Física teriam que promover o esporte, ensinando-o a todos. Seria necessário não apenas transmitir e ensinar técnicas dos esportes com vista a competições, mas transformá-lo didaticamente. Isso inclui uma agenda complexa que passa pela compreensão da sociedade que produz mercadorias e chega à instituição Esporte, que também produz mercadorias. Nesse sentido, nos dias atuais, seria impossível imaginar o esporte sem o componente rendimento. Por isso mesmo é importante que os alunos tenham acesso a informações sobre a mercantilização do esporte, de como ocorre a troca e venda de imagem, produtos, atletas e tantas outras mercadorias no esporte e através do esporte.Isso significa uma nova visão, com mais participantes, com maior número de espectadores que entenderão mais sobre esporte e com um maior número de pessoas envolvidas no mundo de negócios dos esportes, com uma compreensão maior do contexto de envolvimento.Se o mais significativo no esporte escolar são as competições pedagógicas, precisamos aprofundar mais o tema do caráter das competições educacionais. Em primeiro lugar registra-se que a herança militar e médico-higienista nos conformou com a idéia do esporte educacional, necessariamente, de treinamento e rendimento de equipes esportivas como única via de promoção de competições.Muitos cursos de Educação Física pautaram seus currículos pelo paradigma da aptidão física, o que implicou um grande número de horas destinadas ao estudo da anatomia, fisiologia, biomecânica e biologia entre outros. Tais conteúdos estavam organizados por uma formação tecnicista que, no esporte, ensinava nada mais do que gestos técnicos, fundamentos básicos do esporte.

Em sua formação, se houve ênfase em aspectos biológicos, você aprendeu como lidar com pessoas saudáveis e normais ou também teve chance de saber como auxiliar alunos portadores de necessidades especiais, com diabetes, asma, e outros problemas crônicos? O professor de Educação Física é formado apenas para ensinar ao aluno ideal em termos físicos e cognitivos?

Na atual realidade, as mudanças foram significativas e, portanto, não podemos aceitar o implismo desta pedagogia, até porque seus objetivos hoje já não são tão possíveis. Por outro lado, devemos nos afastar do espontaneismo pedagógico que entende que a criança deve jogar de acordo com a construção de regras livres e o professor ser um mero coordenador. Tal perspectiva anula o papel docente e, assim, reproduzimos a lógica da exclusão, isto é, nada ensinamos, nada efetivamente transmitimos para as novas gerações.

Na sociedade, o esporte é um fenômeno do senso comum. As pessoas, nos círculos de conversa familiar ou não, reproduzem o esporte e o discurso existente na imprensa. A reprodução é uma categoria importante para a compreensão crítica do esporte. De um lado, somos levados à reprodução de uma série de ações, movimentos e atitudes, isto é absolutamente normal, aliás é bom que aconteça mesmo a imitação da criança, as cópias dos adolescentes, as imagens que registramos na juventude, etc. Mas este é apenas um ponto de partida, pois, de outro lado, não precisamos e não devemos sempre reproduzir ações, movimentos e atitudes. Isso pelo fato de a consciência crítica se manifestar pelas contradições da realidade e da tirania das circunstâncias, o que nos obriga e negar. Em resumo, a reprodução é uma constante do afirmar, do negar e do afirmar novamente em plano crítico-superior.Por isso as competições pedagógicas precisam ser modificadas radicalmente e isso só ocorrerá quando houver condições próprias, materiais e de recursos humanos qualificados, preparados para este desafio.Descrevemos a seguir algumas características negativas na prática do esporte escolar, para podermos compará-las com possíveis mudanças:

• O esporte escolar reforça os valores da competição em detrimento dos valores da cooperação;• O esporte escolar reforça o individualismo em detrimento da solidariedade;

• O esporte escolar privilegia atividades repetitivas e mecânicas em detrimento da liberdade de movimento, da criatividade e da ludicidade;

• O esporte escolar privilegia a ação exclusivamente diretiva do professor em detrimento do diálogo e da liberdade de expressão;

• O esporte escolar desenvolve as modalidades esportivas mais conhecidas e que desfrutam de prestígio social, como o voleibol e o basquete;

• O esporte escolar privilegia como conhecimento de determinadas modalidades esportivas, exclusivamente a execução técnica e tática dos seus fundamentos como o passe, o drible, a cortada, etc.;

• O esporte escolar reforça a idéia de ascensão social através do esporte (cf. Souza, 1994, p. 81).

Qual seria o contraponto da negatividade do esporte escolar e no que efetivamente os aspectos positivos se relacionam com a política e a sociedade? Para responder esta questão, podemos simplificar o discurso propositivo em quatro pontos e então relacionar as pertinências da política e da sociedade:
• O esporte escolar pode reforçar a cooperação através da educação da sensibilidade, da ética, da estética e dos conhecimentos pertinentes à bagagem dos alunos, bem como à criatividade crítica do professor;

• O esporte escolar pode reforçar o coletivismo ensinando que dependemos dos outros para poder atuar com mais inteligência, mais estratégia na atividade desenvolvida;

• O esporte escolar pode encaminhar crianças e jovens para práticas prazerosas, sem se furtar às competições pedagógicas. O prazer pode se aliar à técnica, à disciplina e ao estudo rigoroso sobre determinada atividade;

• O esporte escolar pode desmistificar a ascensão social de alguns atletas e disseminar um discurso democrático de que sua existência deve ser baseada na possibilidade de ensino para todos.

A aplicação destes pontos no interior da escola depende de um ajuste entre o professor, seus alunos, o projeto pedagógico e também da política traçada por aqueles que detêm poder. Nesse sentido as expectativas de uma política de esporte popular e democrática que possa entranhar-se no seio da sociedade são grandes.

As esferas políticas, desde o governo federal, passando pelos estados e municípios e chegando efetivamente ao coração dos estudantes, podem relacionar-se em uma unidade política de avanço, se compararmos com as tradições políticas de nosso país. Por fim, as dimensões do esporte (educacional, de lazer e de rendimento) também podem criar canais de diálogo na sociedade e é bem possível que isso venha a ocorrer, pois partindo da inclusão social e da democratização do acesso ao esporte, cada vez mais ficarão nítidas as diferenças no fazer esportivo e em seus respectivos objetivos.Se todos concordam com as idéias de que o esporte, na sua dimensão educativa escolar, deva ser regido por princípios próprios e diferenciados do esporte de rendimento, o que dizer do esporte relacionado ao lazer? É possível estabelecer, nas horas de folga dos trabalhadores, práticas esportivas que os conduzam à emancipação?Se entendermos o lazer esportivo como política social, podemos questionar o efeito de tal política, isto é, os conflitos dos setores populares serão anestesiados, adormecidos e amenizados ou terão oportunidade de manisfestar-se nas contradições e reivindicações vigentes? Isso implica questionar se as políticas sociais estimulam os despossuídos e oprimidos a novas conquistas fora o mero direito ao emprego ou se o mero direito ao emprego e o que já existe é o suficiente. Trata-se de uma questão complexa que envolve um certo sentido educacional, mas também pode ser vista pela ótica da necessária redução da jornada de trabalho.

O importante é que a área de Educação Física estabeleça o diálogo com o esporte, traçando as linhas de demarcação dos interesses e confluências.

Nesse sentido podemos separar a Educação Física como componente curricular, mais ligada ao conhecimento da cultura corporal e possibilidades de vivências múltiplas e o esporte escolar mais ligado às vivências esportivas e motoras, diversificadas e/ou específicas.Também podemos separar a educação esportiva do esporte de base, a primeira mais próxima do esporte escolar e das práticas de educação formal; a segunda, relacionada ao esporte de preparação para o rendimento, realizada preferencialmente em instituições de formação de atletas, clubes, associações específicas de treinamento, etc.Por fim, temos que tornar verdadeiro o discurso da inclusão. Isto significa pôr em prática as palavras mágicas do esporte educacional e planejar aulas de Educação Física e esporte que possam expressar com fidelidade o caráter educacional. Significa também abandonar de vez a idéia de que a Educação Física cuida do corpo e da mente (cf. Medina, 1989).

A mentira e o ocultamento das atividades pedagógicas não servem à sociedade, principalmente quando o autoritarismo (e não a autoridade) se faz presente para atropelar toda e qualquer organização democrática. Não podemos mais conviver com a falsa concepção de unidade existente na Educação Física: a de que existe um elo entre corpo e mente que não pode ser dissociado. Da mesma forma temos que rechaçar a famosa dicotomia entre o corpo e a mente, ou seja, não concordar com a divisão e a fragmentação do ser humano. Tais questões implicam necessariamente na abordagem dialética do esporte, avançando-se em direção a uma concepção unitária de esporte, ainda inexistente.Na mesma direção cabe fundamentar a Educação Física como componente curricular excluindo a possibilidade de mera atividade, ou nas palavras de Castellani Filho, “um fazer por fazer”. Isso porque já no nascimento das possibilidades escolares, muitas vezes, há o reforço da perspectiva do “nada fazer” do “recreio prolongado”. Tal perspectiva contribui para deslegitimar a Educação Física no interior da escolar e, conseqüentemente, o esporte escolar sendo tratado como acessório.As conseqüências desse arranjo respingam na sociedade que entende que a atividade física é benéfica para a saúde e ponto. Para além da argumentação fácil, precisamos difundir a idéia de que os interesses de poucos estão sendo o centro do debate político sobre o esporte. Quem não se lembra da famosa frase televisiva: “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”?

Cabe, nesse formato, inverter a lógica do exercício físico descontextualizado e tratá-lo como conhecimento prático e teórico. Prático, pelo fato de que a base do conhecimento é prática, aprende-se na e pela prática, no fazer, no se-movimentar, na expressão do corpo, na imitação dos gestos. Teórico pelo fato de que é a teoria quem generaliza a experiência, revela questões que nem sempre estão implicadas na prática e, além disso, contribui para atingir a consciência das necessidades dos homens, elevando-os racionalmente e sistematizando os pensamentos da prática.

postado por coordenação de educação física 

Fonte: Disponível em: http://codef-ren.blogspot.com.br/2008/06/esporte-educacionalde.html. Acesso em: 29 março 2012.